Vanderson Chaves, esgrimista paralímpico brasileiro, enfrenta um desafio colossal em sua jornada rumo aos Jogos de Paris 2024: as enchentes devastadoras que atingiram o Rio Grande do Sul.
As águas furiosas levaram embora seu equipamento, dezenas de medalhas, o passaporte e quase destruíram seu sonho paralímpico. O apartamento térreo de Chaves, ideal para sua cadeira de rodas, ficava em uma área elevada da capital Porto Alegre. Ainda assim, ele não escapou do desastre que desalojou cerca de 230.000 pessoas.
Dias após a tragédia, sua casa permanece submersa, os poucos pertences restantes cabem em um carro. Além dos danos materiais, sua preparação mental para as duas competições cruciais que definem sua vaga em Paris está seriamente afetada.
“É impossível não ser afetado por isso. Para competir e treinar bem, você precisa estar bem psicologicamente. E eu não estou”, desabafa Chaves à Associated Press no Grêmio Náutico União, clube que se transformou em abrigo para cerca de 300 pessoas desde o início das enchentes. “Venho de uma região carente de Porto Alegre. Tudo para mim é mais difícil de conquistar. Sou negro. Sou deficiente. E agora, isso.”
Chaves competiu nas Paraolimpíadas do Rio em 2016 e em Tóquio em 2021. Há anos figura entre os melhores das Américas na espada e no sabre. Precisa somar poucos pontos em dois torneios em São Paulo para garantir sua passagem para Paris. Para conseguir esse feito, terá que contar com equipamentos doados e uma viagem desgastante, já que o aeroporto de Porto Alegre também está inundado.
Nesta terça-feira, Chaves enfrentará um trajeto de seis horas e 450 quilômetros de minivan, de Porto Alegre a Florianópolis. Em seguida, pegará um voo curto para São Paulo a tempo de competir a partir da próxima quinta-feira. Seus principais adversários, da Argentina e dos Estados Unidos, treinarão e se aperfeiçoarão até lá, buscando ultrapassá-lo no ranking mundial e conquistar a vaga para Paris.
“Fui para a casa da minha sogra; este é meu primeiro dia de volta ao clube. É como uma guerra aqui. Nem sei se teria cabeça para treinar”, lamenta Chaves, que depende de cadeira de rodas desde um acidente com arma de fogo aos 12 anos. “Mas se houvesse algum treino, eu estaria aqui. Esse sempre foi meu escape.”
Há pouca chance de Chaves retornar ao seu apartamento em breve, com fortes chuvas ainda previstas. As autoridades correm para resgatar sobreviventes da enchente que já matou pelo menos 100 pessoas e deixou outras 130 desaparecidas. Novas tempestades com granizo e vendavais são esperadas para o estado na quinta-feira.
“É impossível não ser afetado por isso. Para competir e treinar bem, você precisa estar bem psicologicamente. E eu não estou.” – Vanderson Chaves, sobre as enchentes no Brasil.
Eduardo Nunes, técnico de Chaves, acredita que o esgrimista enfrentará dificuldades além do estresse mental e da viagem inesperadamente longa.
“Ele terá luvas novas. Para um jogador de futebol, é como ter chuteiras novas. Pode causar bolhas; as luvas não estarão amaciadas. Seu uniforme também precisa ser amaciado, e ele não terá tempo para fazer isso e se acostumar a se movimentar com ele. Esses pequenos detalhes vão afetá-lo, mas ele pode superar tudo isso”, encoraja Nunes. “O mais difícil ainda será sua saúde mental. Focar no que precisa focar.”
Atletas esgrimistas do Brasil e dos EUA ofereceram roupas e equipamentos a Chaves. Se ele garantir a vaga em Paris, o governo brasileiro automaticamente lhe concederá melhores recursos para competir.
Chaves enxerga seus desafios como motivação caso consiga a classificação. Ele ainda tem esperança de recuperar algumas de suas medalhas.
“Sei que muitas crianças, muitos esgrimistas cadeirantes, se inspiram em mim”, disse Chaves, emocionado, no centro de treinamento, onde doações para moradores desabrigados se acumulavam na sala ao lado. “Eu os motivo. Posso usar isso para motivá-los e para me motivar a ir atrás disso também.”
“Eu gostava de acordar vendo as medalhas, pensando que na semana seguinte haveria mais medalhas ali. Isso me dava motivação extra. E é porque eu sei que ainda tenho tudo lá embaixo, debaixo da água.”
